Fé Cristã nos Tempos Finais

Pr. Otoniel Oliveira

Este texto conduz o leitor a uma reflexão imediata sobre a realidade escatológica e suas inevitáveis implicações, entre estas se destacam; o que realmente é tido como fé no meio cristão hodierno e; como a interpretação desta molda o meio evangélico atual. As respostas a estas perguntas certamente determinam o modo como a igreja ou o indivíduo pensam sobre sua condição de servo de Cristo e qual a maneira mais apropriada de manifestar a sua fé em prol do evangelho. É público e notório que não são poucas as interpretações equivocadas sobre a fé e como esta se manifesta no meio cristão, todos sabem que tem fé, mas há um sem número de cristãos que não sabem como viver a fé dada por Deus e de modo demasiadamente escuso agem como se fossem verdadeiros mágicos que precisam justificar a presença de uma platéia ávida por novidade. Porém, nem sempre foi assim, nos tempos de Lucas a fé foi o elemento que permitiu aos seguidores de Cristo permanecerem fiéis aos seus ensinos, mesmo em face à toda perseguição e calúnias. Nesta era considerada escatológica, vem então a necessidade de se examinar de forma salutar o que é a fé para o cristão e o que este tem feito a partir da condição de salvo pela fé, vejamos algumas considerações.


O atual conceito de fé conforme é apresentado nos meios populares esta carregado de elementos pitorescos que incluem desde palavras de ordem até o uso de crianças, servindo deste modo, aos mais diferentes fins que vão se estendendo numa lista interminável de pedidos a serem atendidos. Tal prática, no entanto não encontra respaldo bíblico, pois o que se identifica por fé na Palavra de Deus, se trata na verdade de uma capacidade de origem divina que leva o homem a contemplação da salvação em Cristo, a história da igreja revela que nunca houve relação direta com a conquista de bens materiais ou eventos miraculosos, ou seja, primariamente a fé é para a salvação (Rm 10.9) e para o consolo do crente (Sl 116.7-10).
É consenso entre todos que Deus socorre aos que clamam, porém, mesmo nesta situação na maioria dos casos, não há uma relação direta com a fé, pois muitos pedem por socorro numa convicção temporária, sem que haja uma verdadeira transformação de vida, mas apenas uma fé hipócrita, pois não tem raiz em si mesmo (Mt 13.21). O que determina a verdadeira fé nos momentos críticos, não é o desejo de ser atendido, mas a confiança de que Cristo tem poder para realizar um milagre (Mt 8.10), confiança que só vem à medida que há uma comunhão com Ele.
Ainda assim é essencial aos cristãos entenderem a soberania divina quando ao clamar por uma bênção, por mais necessária ou urgente que seja, porquanto nem sempre Deus vai atendê-los, mesmo em face a estas condições, pois vale antes de tudo seu beneplácito. Todavia, é imprescindível que a fé esteja intimamente ligada à prática da oração para que a verdadeira comunhão entre o fiel e Deus possa se evidenciar, principalmente nas dificuldades, pois a verdadeira fé não é aquela manifesta entre uma multidão de pessoas clamando o nome de Deus, motivadas pela empolgação e pela emoção, mas a fé que surge no isolamento de um problema, no silêncio da dor e na tristeza do anonimato, sem ninguém, sem palavras de consolo, sem tapinhas nas costas.
O raso conceito de fé estabelecido no meio evangélico contemporâneo criou a necessidade de um lugar e de uma pessoa iluminada para operacionalizar a fé das pessoas, todavia nem sempre foi assim, a história da igreja revela um conceito de fé entre os primeiros cristãos, que tinha sua sede no coração e seus fundamentos numa vida regenerada, que exultava primeiro com a condição de salvos porque entendiam que esta era a primeira razão por que Deus lhes havia concedido tal fé, só depois criam que as bênçãos eram uma decorrência de uma vida de obediência e da bondade divina. Para a atualidade é urgente que a igreja entenda entre esta profusão de fé que se vê, porquanto a fé é um dom divino concedido aos homens para que estes possam caminhar primariamente rumo à vida eterna, como resultado da graça divina que parte rumo ao pecador moribundo.
É necessário colocar algumas questões como: é possível contar com improvável? Como contar com o que não se pode ver? O texto de Hebreus 11.1 traz uma singular revelação da natureza da fé quando nos diz que ter fé é ir além do físico, é transcender ao trivial e sentir a inconfundível presença de Cristo em nossas vidas. Ainda assim, sabe-se que estar nesta condição privilegiada não garante uma vida acima do bem e do mal, nem livre de problemas que às vezes se estendem por um tempo demasiado longo, mas na verdade implica num entendimento da vontade de Deus, de maneira tal que mesmo diante das adversidades é possível compreender que a presença do Espírito Santo é real e consoladora.
Não é incorreto, todavia, pensar que as bênçãos, as curas e intervenções dramáticas não possam acontecer, porém o próprio testemunho bíblico revela a singularidade destes eventos e a história da igreja trata de deixar claro que isto não é a regra e que seu fundamento se dá através da oração e estudo diligentes da Palavra de Deus.
Mas a fé que determina o bem estar espiritual do crente, a qual se dá desde a sua conversão, se apresenta também no decorrer de toda a sua vida cristã como evidência da fidelidade divina (Rm 8.16), o que permite a contemplação de toda a plenitude espiritual da vida com Cristo. Portanto, uma vida devotada a Deus é o primeiro reflexo de quem realmente compreendeu o que significa viver pela fé, nunca é o acúmulo de bens adquiridos de um suposto favor divino, entre estes grupos há um verdadeiro fosso espiritual, pois o que busca a Deus deste modo, apenas tem interesse em ser atendido em suas vontades, enquanto os primeiros têm como objetivo antes de tudo em fazer a vontade de Deus.
Não é pela aparência nem pelo esforço repetitivo, a fé se apresenta como um dom concedido somente àqueles a quem Deus escolheu para seu louvor, a estes, mesmo sem merecimento algum, mas pelo beneplácito divino, foi dado o privilégio de contemplarem a Deus pela fé (Rm 4.18-20). É a estes que Ele tem bênçãos espirituais sem medida a concender. A fé então não é um elemento encontrado em igrejas ou rituais, mas se manifesta unicamente na vida daqueles a quem Deus concedeu a vida eterna, a saber, nós que já compreendemos e aceitamos o Senhor Jesus como Salvador.
De braços dados andam a fé e a oração, o texto base nos diz isto, o juiz iníquo considerou o pedido da viúva pela persistência, mais ainda fará o Senhor pelo crente que incessantemente busca a Deus, no entanto, a oração nunca deve ser coagindo-o a fazer algo que vise apenas o prazer humano, antes de tudo deve ser sempre objetivando a glória de Deus. Nos dias hodiernos a igreja ganhou independência, já não dialoga mais com Deus na condição de serva obediente, mas entrega a Ele uma lista diária de suas reinvindicações alegando ser merecedora de todas as benesses divinas.
Certamente não é esta a fé que Deus espera encontrar entre seus fiéis, mas a fé que leva o crente a se humilhar e reconhecer que não é merecedor do favor divino, mesmo tendo garantido a vida eterna. Em dias de generalizada confusão teológica, da supremacia do desejo individual, das conquistas a qualquer custo e da busca desenfreada pelo que é material, não há espaço para uma fé que exige entendimento bíblico, submissão e aceitação da resposta de Deus, seja ela qual for, afinal esta fé não é para aquela igreja que detém o poder sobre a fome, a miséria, a pobreza e o diabo. Porém, este ativismo não faz parte da fé dos grandes heróis da Bíblia nomeados em Hebreus 11, estes vultos bíblicos ensinam que a verdadeira fé é entendida racionalmente embora seja vivida em espírito, é vivida dia após dia e ainda assim garante a vida eterna e mesmo que seja menor que um grão de mostarda, tem removido montanhas de problemas, superado dificuldades e desvendado uma realidade espiritual reservada somente àqueles que buscam o Senhor em espírito e em verdade, sem alardes mas com um testemunho inquestionável de quem tem uma vida realmente transformada pelo lavar regenerador do sangue de Jesus.
A fé cristã no momento atual da igreja é praticada de forma autêntica pelos remanescentes de um cristianismo bíblico, lúcido e equilibrado, que é vivido com alegria e convicção de que a cada súplica a alma se regozija no Senhor certo de que Ele atenderá, porque assim estará preservando a fé dos seus santos até que Ele volte.

Otoniel Oliveira é pastor da Igreja Cristã Evangélica da AICEB em São Luís – MA e o mais novo colunista do Razoável

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Sobre Abner Phillip

Servo de Deus, marido, pai, designer, publicitário, blogueiro, músico e gerente de e-commerce nas horas vagas. Inconformado com o mundo, revoltado com o rumo que tem tomado a Igreja evangélica.

Publicado em 24/11/2010, em Apologética, Espiritual e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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